宝石の国 (Houseki no Kuni): A melancolia do reino das joias

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Você já viu por aí algum mangá sobre pedras tristes?

Em um futuro muito, mas muito distante, não existem mais humanos. A Terra se tornou um lugar muito mais silencioso e vazio. No entanto, mesmo que não hajam mais pessoas de fato, alguns seres continuam vivendo com seu legado. Um deles são as Housekis (宝石, literalmente “pedra preciosa”), cujo os corpos são feitos de cristais. Não são exatamente uma raça, mas sim um pequeno grupo com mais ou menos 30 indivíduos. Mesmo que seus dias sejam geralmente pacíficos, Housekis enfrentam um problemas: o Povo da Lua, outra forma de vida baseada nos humanos, às vezes descem dos céus e tentam capturá-las para depois transformá-las em decoração.

 

Essa explicação parece satisfatória? Claro que não, e assim pensou Phos (Phosphophyllite, ou Fosfofilita). Depois de viver mais de trezentos anos tentando e falhando em se encaixar em alguma posição grupo para combater o Povo da Lua, ela foi considerada uma completa inútil. O líder das pedras, Mestre Adamatium, então deu ela a tarefa de criar uma revista de história natural, apenas para que ela pudesse fazer alguma coisa. A curiosidade de Phos então começa à acender, e ela tenta buscar a verdade sobre aquele mundo.

Houseki no Kuni, Land of the Lustrous, Reino das Joias ou ainda Terra das Lustrosas (isso parece um título que sairia em Portugal) é um mangá publicado na Afternoon desde o finalzinho de 2012. Com o primeiro volume saindo no ano seguinte, fizerem um pequeno vídeo promocional animado como propaganda, que acabou minha atenção e me fazendo ir atrás da obra. E desde então, não só venho acompanhando o mangá, como ele é um dos meus favoritos em andamento junto com Mob Psycho 100. Mas tá Jessica, qual a magia disso aí?

 

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Calma que depois aparece mais gente.

Bem, pra começar, Houseki é um mangá que eu não tenho nada à reclamar. Não que seja perfeito ou vá agradar à todos, longe disso. Posso imaginar muita gente reclamando da demora de mais de 50 capítulos num mangá mensal para explicar a porra toda que está acontecendo (não que Shingeki no Kyojin não demore 90), mas para mim nunca foi nada que afetou de forma significativa a experiência. Houseki simplesmente caí como uma luva nos meus gostos, tem muitas coisas que me agradam e então vou usar a chance do anúncio do anime para recomendá-lo aqui. Por isso também, darei uma maneirada nos spoilers e vou deixar pedaços que detalham demais os acontecimentos em poucas linhas escondidas, até porque imagino que quem já teve contato com o mangá também vai querer uma olhada na analise. Então, todo mundo vai poder ver como uma história vai de pedras transformadas em garotinhas lutando contra budas do espaço para um conto meio épico (mas muito melancólico) sobre um mundo fantástico em que nossa espécie já não existe mais. Isso, o treco é sobre o mundo: um futuro distante e bem solitário.

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Ichikawa Haruko, em sua concepção de Houseki, manteve o mangá bem na borda entre a fantasia e sci-fi, de maneira parecia com outra obra apocalíptica que teve anime alguns anos atrás, Jintai (人類は衰退しました/Jinrui wa Suitai Shimashita/A Humanidade Está Decaindo). Você tem explicações de como seres microscópicos habitam as Housekis como uma colônia formando na verdade, um único indivíduo, assim como informações técnicas sobre o grau de dureza de cada pedra. No entanto, isso são apenas explicações de mecânicas daquele mundo, e não uma tentativa de fazer aquilo crível. Chega o oposto: Housekis são, ao menos em alguns aspectos, algo próximo de seres mitológicos que causam estranheza em relação ao nosso modo de vida. Sua existência está muito, muito distante de nós humanos, ou mesmo de outros seres vivos, ainda que o mesmo não posso ser dito de sua natureza em si.

Mesmo que num ambiente militarizado na teoria, as pedras vivem uma vida geralmente descontraída. Não existe tanta diferença assim da interação entre elas e a de um bando de escolares. Phos por si só tem uma personalidade trapalhona de primeiro momento, outra é praticamente a idol (não no sentido de cantora, dessa vez) do grupo, outra a irmãzona, e tem até uma cuja a única função é costurar os uniformes e pijamas mais cheios de laços e fitas o possível. Existe a lutadora mais forte do grupo, mas sua obsessão pela batalha é considerada exagerada por suas companheiras. Histórias com planos de fundo apocalíptico costumam ser sinônimo de algo mais pesado, mas existem aquelas que vão para o lado oposto para outros focos narrativos. SukaSuka (終末なにしてますか?忙しいですか?救ってもらっていいですか?/O que você vai fazer no fim do mundo? Estará ocupado? Pode vir me salvar?) vai pode entrar nessa mesma categoria, focando mais na vida diária das fadinhas (que são na verdade armas suicídas), no valor que as pessoas dão à suas ultimas cidades criadas para os sobreviventes, uma garota querendo comer um bolo e nos dramas quem na verdade não está mais nos campos de batalhas. Esses lugares de conflito armado acabam ficando em segundo plano, ainda que sejam a fonte dos sofrimentos silenciosos de seus personagens. Houseki não tem como esconder a batalha, mas a melancolia no lugar de um desespero mais escandaloso é similar. Junto com o sucesso de crítica, o mangá também se vende muito mais como “obra com bishoujos de pedra” que uma batalha pela sobrevivência contra seres desconhecidos. Afinal, todas as personagens do grupo das pedras (fora Adamantion) tem feições e perfis muito femininos, então por que não? São moças adoráveis, exceto que não são moças. E nem moços, na verdade.
Pode parecer estranho, mas é lógico: pedras são agêneras. Elas não fazem sexo. Não é uma tentativa de forçar alguma discussão de gênero ou coisa assim, mas simplesmente o caminho mais racional considerando que são seres que não se reproduzem. Housekis literalmente brotam da terra, até serem acolhidas pelo líder do grupo, Mestre Adamantium e moldadas para ganharem uma forma mais bela. Isso não é tão claro no começo de princípio, mas quando Phos encontra uma garota de uma raça marinha que também herdou características humanas, só que permanecendo um animal (e então, com a ideia de femino e masculino mais definida). Quando ela revela sua forma verdadeira, Phos chega perguntar “o que são essas bolas de água bizarras?” se referindo aos seus seios (o que também faz o leitor se tocar que todas as Housekis tem peito liso). É provável que ela nem saiba o sentido de gênero que humanos tinham.

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Pedra inocente descobre que seios são valiosos.

E o mesmo vai para outras características humanas. Elas não conseguem sentir o mundo à sua volta como animais fariam. As estações passam, a paisagem muda, a temperatura sobe e desce, mas as pedras continuam ali. É o significado de ser imortal, outro aspecto que é explorado de maneira pesada no mangá. Housekis não morrem, podem ser partidas, quebradas e até derretidas, mas apenas entraram num estado de animação suspensa e poderão andar de novo assim que todos os seus pedaços foram reunidos de novo. Os únicos problemas são que os seres que habitam seus corpos se alimentam de luz, então uma “hibernação” no inverno é necessária, e perdas do corpo também significam perca da memória ali armazenada. Então, não haveria tensão, não? Como criar senso de perigo com personagens que não morrem? Pode parecer irônico, mas a mesma história que lida com vida eterna também lida com perda.

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Phos era a mais nova do grupo com 300 anos de idade, e isso só já ilustra o quão velhas as gemas são. Então, boa parte já viram várias companheiras partirem, capturadas pelo Povo da Lua. Apesar disso, ainda é possível recuperar pedaços das gemas nos restos do Povo da Lua (eles também usam joias como arma). Isso seria uma saída fácil para autora retornar personagens que já se foram, mas na verdade tem um efeito contrário. Recuperar pedaços das gemas demora anos. Centenas de anos. Housekis permanecem séculos lutando, para que, quem sabe às vezes, achem um pedaço perdido de suas irmãs. É tempo o suficiente para qualquer cansar de ter esperança. Ao longo do mangá, aqueles dias felizes das personagens vão se relevando ao poucos, uma espera angustiante. Ainda mais tarde, num dos momentos mais fortes do mangá, (spoilers à seguir) Phos acaba perdendo a cabeça, e para de se mecher. Caigorn, outra pedra, sugere que deveriam usar a cabeça de sua antiga amiga, Lápis Lazuli, que teve o corpo inteiro capturado anos atrás. Adamantium questiona o que aconteceria então quando eles recuperarem o suficiente de Lápis para reanimá-la, e a resposta foi cruel: “Isso nunca vai acontecer. Nós nunca conseguimos recuperar o suficiente de ninguém.“. Ir para a lua e a morte acabam virando quase equivalentes, pois você continua separado do mesmo jeito. A diferencia talvez seja que a morte não deixe falsas expectativas de uma volta.
De uma maneira que possa equivaler à essas ideias, a arte de Houseki no Kuni sempre retrata o ambiente como vasto e vaziou e as batalhas como intensas mas ao mesmo tempo místicas. Espaços abertos, com sombras longas, construções grandes demais para abrigar um grupo tão pequeno, uma natureza que se resume à campos abertos sem animais, um oceano vasto e geleiras distorcidas e por aí vai. E mesmo que as jóias não sejam feitas de carne ou sangrem, Ichikawa Haruko sempre consegue dar impacto aos corpos sendo despedaçados nos confrontos, quase como “um gore com pedras”. Ao invés de dar uma sensação de movimento com linhas e distorções, elas também sempre parecem estarem estáticas (como… pedra) em composições que abusam do uso de simetria. Mesmo que muitas pessoas possam não gostar do jeito simplificado (e com forte ênfase nas pernas) que ela desenha as personagens, mas é inegável que o trabalho dela com quadrinização, ambientação e contraste entre preto e branco é muito bom, à ponto de que eu não consigo imaginar Houseki no Kuni sendo desenhado por outra pessoa. Captar a melancolia da protagonista e do universo à sua volta é essencial.


É, hora de falar da protagonista, afinal ela é a heroína da jornada épica, mesmo que talvez não seja bem assim. Phos começa como um ser patético, desajeitado, até se tonar forte e apta para a luta. Se você puder considerar ela como personagem feminina, seria o típico desenvolvimento de menina bobinha que vira badass, com direito à tradicional cortada de cabelo (e duas vezes, ainda por cima!). No entanto, para a personagem em si, isso não é tão bom. A visão de obtenção de poder em Houseki não é lá muito glorificada, até porque ela vem de perdas. Necessidade de se sentir útil, culpa por ser incapaz de conseguir salvar suas colegas, medo, alucinações e paranoia: é isso que força Phos à pegar numa espada, então como pode ser algo bom?

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Doces tempos de ingenuidade.

Phos passa a história perdendo partes de si mesma, no sentido figurativo e literal. Inicialmente, sua forma de fosfofilita não tinha resistência o suficiente para que ela pudesse lutar. No entanto, os seres em seu corpo tem uma capacidade de adaptação incomuns, e conseguem aceitar outras substâncias. Ou seja, Phos consegue substituir as partes do corpo que perdeu por outra coisa, e faz isso ao longo da história. No entanto, o cérebro das Housekis continua sendo o corpo todo. Tanto por causa dos acontecimentos, tanto pelas trocas de membros, ela muda, e se transforma num verdadeiro Frankenstain de pedra. Muda tanto que à certo ponto, outras personagens questionam se ela pode mesmo ser chamada de Phos.
Mesmo que ela tenha ganhando a capacidade de lutar contra o Povo da Lua, seus fracassos continuam e cada um deles vai pesando mais e mais em suas costas. Ela perde seu jeito descontraído, começa à alucinar e a suspeitar de seu mestre que amou desde sempre. Phos se mantem forte o suficiente para seguir em frente, mas só isso. Não há nada de glorioso ou heroico, pelo contrário, ela falha e muito em proteger suas companheiras. E até esqueceu promessa que vez com sua melhor amiga (ou talvez, mais que isso), que era seu objetivo inicial.

 

Pode parecer uma visão um tanto pessimista demais, mas não é. Simplesmente é questão de dar peso aos acontecimentos. Força moldada com dor nem sempre é motivo para orgulho, e muito menos algo à ser comemorado. Phos se torna memorável não por ser uma personagem forte, mas por não ser tão forte assim. Ela carrega uma cicatriz de tudo que passa, tornando-a um dos meus aspectos favoritos nesse mangá que tem tanta coisa para gostar. No entanto, mesmo que o desenvolvimento em si seja meio depressivo, talvez o final não vá ser. Apesar de tudo, ela ainda amadurece, e aprende mais sobre aquele futuro distante, e o que fazer para resolver esse ciclo eterno de tristeza.

Houseki no Kuni possivelmente vem se aproximando do fim, agora que boa parte das cartas do plot estão na mesa. Isso explicaria o timing para o anúncio do anime, por exemplo. Independente de como ele será, já é uma obra que marcou o suficiente para ser lembrando por um bom tempo, então queria divulgá-la com vocês. Não sei exatamente o que esperar da adaptação animada, algumas escolhas são meio… estranhas (Orange está no cargo da obra, eles são um bom estúdio de CG, mas não sei adaptar Houseki nesse estilo é uma boa ideia), mas o mangá sempre vai estar ali sendo bacana. Espero ter conseguido convencido pelo menos um outro marmanjo à ir atrás da leitura e que ele não tenha se arrependido de conhecer minhas amadas pedrinhas tristes.

 
Só fiquem longe dos famosos “textões de internet” assim que o anime estrear. Paz.

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