Texhnolyze (2003): No fundo do abismo

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Desvendando um dos animes mais cinzas feitos pelo Japão desde que animação era em preto e branco.

No finalzinho dos anos 2000’s, eu começava à ver animes pela internet, lógico que com um conhecimento sobre o assunto muito menor que hoje em dia. Antes de ter uma noção do quão vasto eram os horizontes da mídia, eu tinha a ideia de que anime podia-se classificar em três tipos: os shounens porradeiros populares da época (Naruto, One Piece, Bleach e se você já  fosse por dentro das manhas, Fullmental Alchemist), shoujos para melar a calcinha (no qual entrava qualquer coisa com romance, independente de vir de fato de um shoujo ou não) e animação “adulta”, o famoso “seinen psicológico”. Assim como o shoujo, essa definição era muito mais um esteriótipo que a indicação demográfica que realmente significa.”Seinen” era aquele anime que fazia “anime” se diferenciar mesmo da animação americana para crianças. Tinha sangue, violência, histórias complicadas de se entender e odiavam cores vivas e alegres. Em resumo: o que Akira vendeu como sendo “anime” para o resto do mundo.

Mas porque diabos eu estou falando tudo isso? Por que bem, vendo o começo de Texhnolyze, esse esteriótipo de animação adulta japonesa dessa época me saltou da memória. Como já dá para imaginar, muito desses animes “maduros” eram simplesmente algo inadequado para crianças assistirem, com uma camada mais superficial por dentro. Eram que nem desenho para crianças, só que mais gráficos.  Mas Texhnolyze não é assim. Texhnolyze é cinza, por fora e por dentro, e definitivamente não é para qualquer um.

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E ainda falam que hoje em dia, olhos são irritantes e detalhados demais para desenhar.

Só para se ter uma ideia, ela é uma série um pouco difícil de sumarizar, porque vendo o começo sem informações prévias, você provavelmente vai se sentir (um pouco ou muito) perdido, mas vamos tentar fazer o possível. A história se passa em Lukuss, uma cidade subterrânea, criada para extrair uma substância chamada Rafia, usada para criar os membros artificiais mecânicos que dão nome à série: Texhnolyze. Esses membros não apenas servem como prótese, mas também alteram a percepção do ambiente do usuário, chegando à afetar a mente. Como se pode imaginar, Lukuss não é o melhor para se viver que existe: além da pobreza, a cidade é uma terra sem lei. Existem desde grupos fanáticos semi-religiosos como União da Salvação à gangues juvenis como Rakan. A única coisa próxima de uma instituição para manter a ordem é Organo, e mesmo ela lembra uma verdadeira máfia: seus membros são homens engravatados, sempre armados, e negociando com as outras duas facções, ou mesmo disputando poder dentro da própria Organo.

Sendo sobre essa cidade, Texhnolyze tem vários núcleos de personagens, mas os dois principais são Ichise e Ran. Ichise é um lutador que se enfrentava em duelos (bem violentos) de entretenimento, até que um dia bate numa mulher que não devia (no meio de transa, porque como eu já disse, nesse anime é assim que banda toca) e acaba perdendo um braço e uma perna como punição. Por sorte ou não, ele chama a atenção de uma doutora especializada em Texhnolyzização, e recebe, mesmo que contra a vontade, dois membros artificiais. Já Ran é uma menina de um vilarejo longe da cidade, que tem o poder de ver o futuro (ainda que apenas uma possibilidade). Nesse meio tempo em que Ichise está em uma situação difícil, ela recebe um misterioso visitante  chamado Yoshii vindo da superfície.

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Se essa premissa já parece complicada, não se preocupe que no anime em si é ainda mais. Texhnolyze abre com um episódio com um mínimo de diálogo possível (se foram 2 minutos, é muito), te jogando diretamente naquele mundo escuro e depressivo e na vida de Ichise tão obscura tanto, sem de dar quase nada de informação. Mesmo que os episódios seguintes não sejam tão pesados na falta de falas, as coisas só começam à ficar mais claras lá pelo terceiro ou quarto episódio, quando Ichise finalmente recebe os novos membros. Mesmo que a direção do anime consiga manter a narrativa silenciosa do anime interessante, esse começo já mostra que a série não é madura apenas por ter membros decepados ou uns peitinhos de fora: é algo que cobra mais paciência, que o telespectador mais juvenil ou bitolado provavelmente não iria digerir muito bem. É tipo de anime que você precisa entrar no clima para poder apreciar de verdade.

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Das cenas silenciosas, essa uma das mais interessantes e ilustra bem a aflição de Ichise ao ficar desabilitado.

No entanto, mesmo que Texhnolyze tenha um começo lento, assim que nos sentimos mais imersos em Lukuss, tudo fica mais e mais interessante com o passar dos episódios. Os confuso apesar de confuso não deixa a sensação de se mera perda de tempo, e sim um mero posicionamento das peças importantes para trama da primeira metade do anime realmente engatar. Yoshi, o homem da superfície, merece um destaque nesse ponto, se tornando um personagem fascinante quando você descobre suas reais intenções com Lukuss. Mas ao mesmo tempo que fica mais parecida com um anime “normal”, a série não perde a sua essência do começo. Ichise e Ran mesmo sendo teoricamente os “protagonistas”, são os personagens mais quietos da série, de uma maneira que é difícil saber o que se passa na cabeça dos deles. Chega à ser engraçado quando formam uma dupla de fato, já que os dois apenas ficam um do lado do outro sem trocar palavras.

texhnolyze-04-dvd-720x480-x264-aac-mkv_snapshot_17-34_2017-01-05_00-04-47Yoshii: sem duvida dono de um dos bigodes mais charmosos do início dos anos 2000’s.

Sobre os personagens, aqui entra um aspecto que torna série mais “inacessível”. Texhnolyze tem uma galeria de personagens interessantes, com certeza, mas não dá para chamar eles exatamente de carismáticos. Ichise principalmente é bem apático à maior parte do tempo, mas não é como se o resto tivesse muito apelo. Mas ao mesmo tempo, não é como se o anime tentasse fazer eles “gostáveis”: são todos pessoas que estão tentando primeiro sobreviver mais um dia, e quem sabe, ficar de bem consigo mesmas.  Não é como se quisessem agradar ninguém.

Toyama, que aparece mais tarde no anime (e é pessoalmente um dos meus preferidos) é a melhor exemplificação disso. Mesmo permanecendo com um amigo de Ichise (ao seu modo, junto com Ran é a coisa mais próxima que ele chega à ter de um colega), ele troca de lado constantemente, sempre ficando e bajulando quem é mais conveniente. Numa tentativa de se livrar dos laços familiares de um pai abusivo, ele adquiriu um membro Texhnolyze e entrou para a Organo, mas mesmo assim volta à negociar com esse mesmo pai quando se vê sem escolhas. O único personagem com um verdadeiro carisma é justamente o único que precisa: Onishi, líder da Organo. Ele impõe respeito ao seus membros, fazendo com outros ou sigam, ou o invejem, ou queiram mesmo que inconscientemente, ser como ele. Tudo para fazer com que o buraco Lukuss mantenha sua pouca ordem. Essa questão de sobrevivência se torna mais forte na segunda metade do anime, quando você começa sentir que as coisas podem dar errado, e minha nossa, como elas dão.

Com uma história já tão cinza, o resto não podia ser diferente. Hiroshi Hamasaki, diretor que até hoje é bem ativo em adaptações de obras conhecidas (Steins; Gate, Orange, Terraformars) sempre teve um estilo bem próprio, mas nesse seu título cult e underground (AH! Entenderam?), sua direção e gosto pelo pálido caí como uma luva. Lukuss nunca deixa de parecer o ambiente decadente e feio, revestido por concreto e com fiações e tubos por toda patete. Não são poucas as vezes que o anime faz o lugar parecer um ambiente claustrofóbico, aprisionando seus personagens. No entanto, apesar de ser feito pela Madhouse no que considerado sua melhor época, a animação é basicamente estática. Eu particularmente não sou fã da adaptação dos designs de Yoshitoshi Abe. Por mais que eu concorde que os personagens desse tipo de anime tenham sim que parecer mais “realistas”, às vezes o excesso de detalhes, principalmente no rosto dos personagens, parecia meio exagerado. Nesse sentido, Lain parece ter feito um trabalho melhor com um desenho simples que faz mais com menos, mas eu não cheguei à ver o anime todo para dizer isso com certeza. Ainda assim, no aspecto visual, Texhnolyze tem uma ambientação forte o suficiente para você não se importar tanto com esses dois pontos fracos.

A música é outro aspecto que reflete todo o resto da obra: é experimental e triste. Hajime Mizuguchi e Keishi Urata são dois compositores com poucos trabalhos no currículo, mas esses poucos trabalhos incluem Escaflowne, Jin-Rou e entre outros. A abertura foi feita por  June Reactor, que trabalhou em filmes como Matrix. Mesmo não sendo fã desse tipo de música eletrônica, eu me empolgava sempre que ouvia essa abertura. Não acaba sendo desoladora como o anime, acho que ela estranhamente combina com a série. Talvez pelo clima ciberpunk? Já o enceramento ficou à cargo do cantor popstar japonês Gackt, uma das suas poucas contribuições em animes. Aqui sim, temos uma música mais dramática, e que música, apesar da sequência ser simples e delicada (curiosidade: esse foi o primeiro trabalho relevante de Sayo Yamamoto como diretora).

Agora, sobre o final… caramba, o que eu deveria falar sobre o final? Texhnolyze já poderia ser considerada um anime não muito feliz pelo que aconteceu nos seus primeiros dois terços, mas a reta final… É como se alguém de desse um soco, falasse que sua vida não tem sentido e depois fosse embora. Definitivamente, é o que vai acontecendo no final que fez a série ter a fama de depressiva que tem. O episódio 19 merece uma atenção especial porque é um dos trecos mais desoladores que eu já vi. Não vou falar muito sobre ele porque merece um texto inteiro próprio, mas quando você chega nesse ponto… entende que as coisas não vão acabar bem. Estranhamente, o diretor responsável pelo episódio (Masahiko Ohta) foi para o lado das comédias e está dirigindo Gabriel Dropout nessa temporada. Isso mostra como a industria mudou ao longo dos anos? Quem sabe.

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E se você acha que o fator cyberpunk iria fazer o anime pôr a culpa na tecnologia (ou não uso dela), não é tão simples assim. O Texhnolyze em si nunca é retratado como causador dos males, ou o que vai tirar aquele lugar do inferno que se tornou. A grande tragédia da obra vem porque as pessoas não sabem lidar com seus ideais, perseguindo falsas ilusões ou tomando medidas extremas, o que torna tudo mais triste do que já é. Como toda tragédia, essa parte é repleta de mortes, e elas contrastam bem nisso. No fim, a morte sempre chega, mas ao menos às vezes se tem escolha de como você vai estar, mentalmente falando, quando ela vier.

No estilo de todo resto, o fim também deixa certas coisas vagas, não que esperasse tudo explicadinho à essa altura do campeonato. No entanto, mesmo que algumas coisas sejam mistérios abertos de maneira charmosa ou mesmo algum simbolismo com o resto do tema da série, às vezes me pareceu que o anime se engasgou um pouco no próprio pretensiosismo. Alguns personagens não pareciam ter uma personalidade assim tão definida, e isso inclui mesmo o próprio Ichise. Ao longo da série ele sempre se deixou levar pelos eventos, e mesmo que isso seja até intencional, ele não me pareceu um personagem com lá muitas camadas. Não é só por que ele não expressava o que pensava, a sensação que eu tenho é que o roteirista não pensou tão bem o que ele tinha dentro da cabeça. Por isso a relação dele com Ran, que é importante no final, acaba ficando um pouco… estranha. É justificado porque ele vai atrás dela, mas ainda assim, algo parece fora do lugar. Não é nada que vá estragar a experiência, mas talvez esses pequenas problemas foram o que evitaram a série de ser mais lembrada ao longo dos anos.

De qualquer forma, Texhnolyze é uma experiência única. Como eu já disse, não é para qualquer um, você tem que se adequar ao anime e não o contrário. Ao mesmo tempo, se você conseguir, ele te recompensa. É sim, um anime com substância. Alguns odeiam esse tipo de niilismo, mas outros também o procuram. Mais um ponto é que, de certo modo, Texhnolyze é uma série de seu tempo: não é o tipo de anime que eu consigo ver passando nessa década. Hoje em dia, anime “adultos” (ignorando o moe ou séries fujoshis porque são um caso à parte), não estão interessadas em mostrar homens armados se matando em ambientes distópicos ou crises existenciais da humanidade. Temos obras como Rakugo e Fune wo Amu, que narram a vida de seus protagonistas de maneira muito mais relacionável à esse tipo de público. E são sim, tremendos animes, então não é uma mudança para pior, apenas uma troca de estilo e abordagem.

No fim, só posso dizer que sim, achei Tehxnolyze um bom, até ótimo, anime. Só não recomendo ver o final antes de ir dormir.

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5 pensamentos sobre “Texhnolyze (2003): No fundo do abismo

  1. Gostei do texto, fez me querer assistir o anime, coloquei ele entre os 10 seguintes a se assistir, porém estou meio receoso. O anime aparenta ser bem triste, só irei assistir quando eu não estiver muito depressivo, se não caio em um buraco sem fim.

  2. Queria dizer que o seu texto me motivou a ver esse anime. Eu vi os 22 episódios em três dias. Quando eu terminei de ver,vim aqui ler ele de novo,desde o início. Te digo que você abriu a porta para eu experimentar algo totalmente único. Eu tinha um certo preconceito com esse anime,por ele parecer passar uma experiência chata e maçante,mas foi o contrário,me vi preso ao computador e interessado ainda mais,principalmente após tantas coisas ruins acontecendo em sequência. O conflito dentro de Lukuss já seria interessante por si só,mas se expande. Um anime bem filosófico e que caiu como uma luva. Já é um dos meus favoritos.

    • Obrigada, fico feliz que tenha visto o anime por minha causa ;-;
      Apesar do niilismo todo também achei Texhnolyze bem rápido de assistir, inclusive cheguei à adiar os animes dessa temporada por causa dele.
      E sobre acontecimentos ruins… acho que esse anime é um dos únicos que dá pra afirmar que nada de bom acontece. Tem coisas menos ruins, mas não dá pra chamar de realmente “bom”.

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