One Punch Man e Mob Psycho 100: Indo de um à cem

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Afinal, quais são as diferenças e semelhanças entre esses dois animes? Por que eles são tão parecidas mas tão diferentes ao mesmo tempo? E o que as faz interessantes? Veremos!

ONE deve ser um dos mangakás que mais tem ganhado atenção nos últimos tempos. Num espaço de menos de um ano, dois de seus trabalhos ganharam adaptações para anime: One Punch Man, com doze episódios em Outubro do ano passado (ainda que tenha sido a versão “refeita” pelo Murata), e Mob Psycho 100 nesta temporada de Julho. O próprio fato de serem duas obras ganhando anime vindo do mesmo criador num espaço tão curto de tempo já chamaria a atenção, mas mais do que só isso: ambos os animes são extremamente bem produzidas, feitos por estúdios de peso (Madhouse para OPM, BONES para Mob) com equipes super talentosas. No entanto, seria ONE só um cara sortudo em conseguir adaptações com times estrelares? Seriam os animes de suas obras apenas uma festa para animadores se mostrarem?

Nesse texto eu vou tentar comparar One Punch Man e Mob Psycho 100, e ir um pouco além da animação espetacular de cada um. Isso não quer dizer que o trabalho de todos os incríveis profissionais dessa área deva ser ignorado, muito pelo contrário: ambos os animes já podem até ser considerados um exemplo, ou até marco nesse aspecto. Porém, toda a atenção dada à animação tem ofuscado um pouco o trabalho de ONE como criador, que é igualmente digno de atenção. Vou usar o anime de ambos como base para tornar o artigo mais acessível (o anime de OPM inteiro e os cinco primeiros episódios de Mob, o que foi lançado até a publicação desse post). Por isso, esperem algumas características que são exclusivas das adaptações animadas, mas que não deixam de ser extensões das ideias do ONE (e lógico, spoilers, não que eu ache que alguém se importe de levar spoiler de One Punch Man, mas enfim).  O objetivo não é falar qual deles é melhor ou pior mas sim meramente traçar um paralelo entre as duas obras, o que elas tem de parecido e diferente. (Nota: antes que me perguntem, eu pessoalmente prefiro Mob, mas se estou fazendo esse texto é porque obviamente recomendo os dois animes.)

Pra facilitar um pouco acompanhar um post tão longo, eu resolvi separar tudo em tópicos com cada um dos meus pontos. Bem, sem mais delongas, vamos ao que interessa.

Ponto #1: Um protagonista nem tão cool assim

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Antes mesmo de começar qualquer um dos dois animes, este é um dos primeiros aspectos que notamos é que tanto Saitama quanto Mob tem um design diferente do que se espera de um protagonista de um mangá de super-poderes. Mas exatamente porque?

Falando especificamente do gênero shounen (de porrada), a tendência é que os autores tentem fazer seus personagens chamativos,  de uma maneira que atraia o público jovem e que sejam facilmente reconhecíveis. Até porque, quando você pensa nesse tipo de obra, é a imagem do protagonista que vai saltar primeiro na cabeça (diferente de uma comédia romântica, por exemplo, em que a atenção é mais desviada para as heroínas). Isso vai desde dar à esses personagens uma cor de cabelo diferente do natural, uma roupa estilosa, um assessório próprio, um sorriso confiante e cativante, tudo que faça o personagem se destacar e agradar visualmente. Aí que entra a primeira quebra de expectativa nas duas obras.

Analisando primeiro Saitama: ele sequer tem cabelo, e sua roupa parece que foi feita pelo alfaiate do bairro (e foi mesmo) e sua expressão costuma ser uma pokerface desenhada da maneira mais simples o possível à maior parte do tempo. Para ser mais específico, seu design foi inspirado em Anpanman, personagem herói-cabeça-pão de livros e desenhos infantis (a pronuncia de One Punch Man no sotaque asíatico fica “wanpanman“, o que deixa a referência ainda mais clara). É uma uma figura, para aumentar o efeito cômico, devido ao contraste da aparência de Saitama com sua força monstruosa.

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Saitama e Anpanman

Em seguida temos Shigeo/Mob que segue uma lógica parecida, apesar de mais sútil. O design dele consiste num menino sem nada chamativo, com um uniforme preto padrão e expressão apática à maior por ainda mais tempo que Saitama, uma tentativa de ser o mais mundano (ou até sem graça) possível. Simples o suficiente para ser um figurante, se misturar na multidão (por isso mesmo, “Mob”). A ideia não é um contraste cômico como OPM ou mesmo apagar o protagonista para torná-lo um self-insert do leitor, e sim dar justamente a ideia de que o personagem principal é justamente alguém que ainda não afirmou a própria identidade.

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Ambas as séries tem personagens que são contra-exemplos de seus protagonistas nesse sentido: Genos é que seria um protagonista convencional. Ele além de ser visualmente bacana, teria todo uma história passada e objetivos clássicos, que são justamente satirizados na série. Em Mob, Teru, além de ser o “antagonista” (à primeira vista) é a completa antítese de Mob: cabelo loiro e olhos claros, sorriso confiante e mesmo o seu uniforme escolar tem um semblante mais colorido e vivo que o preto sem graça de Shigeo. . Dá para citar muito mais coisas em que os dois se opõem, mas o melhor é deixar isso para depois e pular para o próximo tópico.

Ponto #2: Grandes poderes, grande bullshit

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A busca pelo poder é algo quase que padrão em battle shounens, no entanto, na visão do ONE, poder demais significa problemas. Essa característica é comum nas duas obras, mas ao mesmo tempo, é na sua abordagem que elas começam à se diferenciar e criar identidades distintas.

One Punch Man tem isso como quase que como base: logo no primeiro episódio, somos apresentados que Saitama, antes de ser herói amador, era um trabalhador normal em busca de um emprego. Depois de salvar uma criança de um monstro no caminho de volta de um entrevista fracassa, ele decide regatar o sonho de infância de virar um herói, justamente para fugir das amaras de uma vida monótona de um salary-man e dar um pouco mais de emoção à sua vida. Ele colocou como objetivo ser o mais forte, aquele que derrotaria os vilões com apenas um soco. Ironicamente, assim que esse objetivo foi alcançado, Saitama voltou à ter uma vida tediosa, já que derrotar seus inimigos não lhe trazia mais desafio ou empolgação. Seus poderes estrondosos tiraram dele o fervor da batalha. Essa ideia permeia o anime todo, a ponto que o clímax final ser justamente uma luta contra um rival que Saitama precisa de mais de um soco para derrotar. No entanto, pode-se dizer que OPM é mais sobre Saitama tentando lidar com insatisfação que com seus poderes por si só.

Já em Mob Psycho 100, o problema de se ter poderes não é tão evidente no ínico, mas chega à ter efeitos tão profundos em em um quanto no outro. Shigeo talvez não seja tão monstruosamente forte quanto Saitama, e não consegue libera toda sua força em tão rápido (só quando suas emoções estão no pico, “100%”, oposto do soco apático de Saitama). E, diferente de Saitama, seus poderes não foram conquistas e sim são algo que ele carrega desde pequeno. Por isso que, ao invés de buscar se distanciar de uma vida normal, Shigeo quer o que a maioria dos meninos da sua idade almejam: popularidade, boas notas e impressionar uma garota. Ele não quer ser identificado apenas como um esper.

Numas das cenas do episódio 3, por exemplo, Shigeo mostra seus poderes para Tsubomi levitando animais. Ela primeiro acha interessante, mas logo se cansa e vai atrás de outro menino. Provavelmente foi à partir desse ponto que Shigeo começou à ver seus poderes como algo que na prática, não melhora muito a vida dele. No episódio seguinte, ele inclusive comenta  que não consegue ver muita utilidade nos próprios poderes, que preferia ter músculos e que inveja o próprio irmão que é aluno exemplo.

 

Mas, além de inúteis num sentido prático, os poderes de ambos os personagens podem prejudicá-los. Saitama é muitas vezes acusado de ser uma farsa justamente por seus poderes não baterem com seu posto na hierarquia da associação de heróis. No caso de Shigeo, de novo, as coisas vão um pouco mais fundo: seus poderes chegam à dificultar a sua interação com outras pessoas. Ele tem um código moral: não usar suas habilidades em outras pessoas. Shigeo teme que seu dom venha à prejudicar os outros ao seu redor, diferente Saitama não tem essa preocupação. Depois de desmanchar grupo religioso do LOL, ele fala como que se sentiu culpado por estragar a diversão de pessoas que só estavam rindo, e quando é confrontado por Teru, ele abre mão do direito de de revidar e se defender justamente para que seus poderes não machuquem outra pessoa. Chega à ser um peso grande demais para um adolescente suportar.

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Ainda assim, nem tudo é ruim: ambas as obras te lembram algum momento que só esses poderes podem resolver certos problemas. Mesmo que te trazendo problemas, esses seus dons são especiais, é só não se deixar levar. E isso nos leva ao nosso próximo tópico.

Ponto #3: “Se ninguém é especial…”

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Esse é um quote da abertura de Mob Pyscho 100, mas essa ideia permeia as duas obras: ter super poderes não te faz um super humano. Ou pelo menos, não é para te fazer deixar de ser um ser humano.

One Punch Man é um anime repleto de heróis, todos diferente em aparência  e poderes, e uma boa parte com orgulho destes últimos. Uma boa parte deles gosta de contar vitória antes da luta para… justamente, levarem uma surra. E aquele mais forte, que aparece para salvar o dia, é justamente um amador. Um cara completamente normal, que faz compras no mercado, vive num apartamento pequeno e janta no restaurante da esquina. Novamente, esse contraste é o que cria um teor cômico: o super-herói é gente como a gente. Não que obras desse sub-gênero não costumem mostrar personagens em situações cotidianas mas geralmente a divisão entre vida civil e vida heroica é bem nítida. Já em OPM, vemos Saitama ainda de uniforme no mercadinho da loja de conveniência, deixando claro que esses dois opostos não são separados, e sim sempre entrelaçados. Não é apenas uma questão de dar ao herói problemas para nos identificarmos, como Peter Paker, Saitama é simplesmente casual. O mais próximo de um equivalente americano no mundo cinematográfico recente é, Deadpool por exemplo, que usa um humor parecido em alguns momentos (ele pega um táxi para ir até luta com os vilões, com a sua roupa vermelha e tudo mais).

Se em OPM a ideia de que poderes não te fazem especial é subentendida e talvez nem proposital, em sua segunda grande obra, ONE explora esse assunto mais à fundo e de maneira mais evidente. Mob foi ensinado por Reigen que seus poderes podem ser comparados diversos talentos naturais que outras pessoas possuem, e por isso mesmo ele não deve se pôr num patamar à cima da sociedade. Ser um esper não te faz especial, por que é apenas mais uma diferença sua dos outros, e todos temos dons diferentes. E esses dons deveriam ser usados para nos ajudarmos, não nos declararmos superiores.

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Não por acaso, os vilões de ambas as obras são justamente seres que usam os poderes como bem entendem e tem a necessidade de sempre se reafirmarem como superiores. No caso de One Punch Man, por mais forte que cada vilão possam ser, todos são derrotados facilmente por Saitama. Em Mob Pyscho 100 acontece algo parecido só um pouco mais aprofundado. Os primeiros vilões já olham para Mob com tom de superioridade, mas é quando Teru aparece que isso fica mais evidente.

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Como eu já comentei antes, Teru é o aposto de Shigeo em design, mas também em todo o resto: personalidade, ideologia e a maneira como ele lida com os próprios poderes. Ele se auto-denomina  o  protagonista, enquanto Shigeo é o só o Mob. Não é atoa que o encontro dos dois teve tanto impacto: outra pessoa que possuía os mesmos poderes, só que tão fortes que ele sequer conseguiu forçá-los à usá-los. Alguém que havia sempre vivido sem dificuldades, finalmente havia feito ele se sentir inferior. Ou melhor, faz ele perceber que é igual aos outros. É por isso que ele vai contra Mob com tamanha agressividade: se com seus poderes ele não consegue resolver os problemas, então com o que vai ser?

O momento em que Teru colapsa é justamente quando se rebaixa, a apelar para simples violência física, coisa que ele considerou momentos atrás, necessária apenas para os normais que ele tanto menosprezava. Ele dependia tanto de seus poderes que sua identidade se resumia à isso, então não usá-los é sua quebra completa. E, como cereja no bolo, independente de ser um esper, ele é mandado pelos ares junto com os outros delinquentes e a escola pelo poder monstruoso de Shigeo. Desastre que foi desencadeado não por ele, mas pelo próprio Teru.

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A mensagem é clara nos dois casos: não olhe os outros de cima, pois um dia alguém pode lhe fazer o mesmo. Mas por que ela tão mais descarada em Mob que em OPM? Porque aprender à respeitar os outros e se aceitar como parte da sociedade e não como alguém acima dela é uma parte importante no crescimento de qualquer adolescente, e Mob Psycho 100 é sobre isso.

Ponto #4: Competência não significa reconhecimento

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Dessa vez, esse aspecto é mais evidente em One Punch Man e um pouco menos marcado em Mob Psycho 100. Saitama, mesmo sendo indiscutivelmente um seres mais fortes da associação de heróis, não costuma muita atenção da população num geral por mais impressionantes que sejam seus feitos. Ele mesmo comenta que nunca ouviu falar de um herói que fez tanto quanto ele, mas por alguma razão ninguém sabe que ele é. Boa parte dos créditos vai sempre para Genos, que geralmente acaba as lutas despedaçado e salvo por seu “mestre” (mesmo que ele não se sinta confortável com isso, afinal ele admira e respeita Saitama), ou para alguém que teve pouca participação na coisa toda

.

Uma desses heróis parte inclusive está mais interessado em receber reconhecimento, subir de rank, que em salvar pessoas como um herói de fato faria. É uma abordagem mais cínica sobre o assunto, que faz parte da obra. Saitama não gosta tanto dessa ideia de ficar desconhecido, mas sabe que isso não é exatamente o que importa.

Em Mob Psycho 100 temos como exemplo, desde o primeiro episódio, Reigen sendo o mentor de Shigeo, apesar de não ter nenhum poder psíquico de fato. Ele sequer consegue ver os espíritos em várias situações depende dos poderes de Shigeo.

No entanto, em ambos os casos, nada é totalmente ruim. A existência de heróis mais mercenários não impedem que outros mais nobres como Mumen Rider (que mesmo fraco, não deixa de lutar pela justiça) apareçam. Sempre existem pessoas dispostas em ajudar. Mesmo o próprio Saitama começou desse jeito, ainda desprovido de poderes.

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Pelo lado de Mob, Reigen ser o mestre de Shigeo não seja algo tão ruim. Mesmo ele claramente se aproveitando de Shigeo, o ensinou à usar seus poderes com responsabilidade e costuma falar o que o garoto mais precisa ouvir. Quem sabe que tipo de pessoa ele teria se tornado sem o Reigen. Seria desastroso ele criar uma personalidade parecida com o Teru com a força que ele tem.

Ponto #5: Violência física vs Violência psicológica

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OK, tanto OPM quanto Mob estão bem distantes de serem consideradas séries de horror, mas em ambos os casos, eles tem que fazer seus vilões parecerem ameaçadores, intimidadores e por um lado, assustadores. Mas como cada série faz isso?

Eu já havia comentado que ambos os vilões tem a tendencia de ter um ego alto e subjugalrem os outros (bem, isso é natural da natureza de “vilão”), no entanto, a maneira que eles fazem isso nos dois animes se difere.

Vamos começar com OPM porque ele é um pouco mais simplista nesse sentido: é tudo na base da violência. Os inimigos são uma ameaça simplesmente porque se não forem detidos, vão destruir tudo pelo caminho e pisar (literalmente em certos casos) tudo que vier atrapalhar. A ideia é que, se você cruzar com um deles, seria morto sem dúvidas. Então, quanto mais poder de destruição, mais intimidador (não é toa que as ameaças são classificadas justamente com esse critério). O que esses vilões podem fazer? Podem destruir uma cidade em instantes? Podem sugar seu sangue em segundos? Podem cortar sua garganta num piscar de olhos?

E lógico, toda essa violência tem que ser demonstrada de uma maneira gráfica. Talvez o tom cômico faça as pessoas não notarem tanto isso, mas o primeiro episódio de OPM foi cheio de sangue (de monstros e de pessoas), além de tripas voando para todo lado. Não o suficiente para chocar ou causar nojo, mas o suficiente para te mostrar que sim, aquele bicho é perigoso. E novamente, também serve para criar contraste: quanto mais ameaçador o inimigo for, mais a sua derrota vai parecer patética quando Saitama o derrotar com um só soco.

Agora, Mob Psycho 100 por outro lado, não teve nenhuma gota de sangue derramada em seus cinco episódios. Não apenas no sentido literal: nenhuma das situações apresentadas na série deve ter causado a morte de alguém, dentro ou fora das telas. Os espíritos são exorcizados, mas bem, se trata de pessoas que já estão mortas. Ainda assim, o tom do anime pode ser considerado mais pesado que o de One Punch Man. O dia a dia de Mob com certeza é muito mais pacífico que o de Mob, já até agora cidade nenhuma foi aniquilada, mas então, como os vilões se impõe?

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Analisando os dois principais inimigos de Mob Psycho 100 até aqui, dá para entender por que eles são diferentes dos de One Punch Man. Ao cruzar com Shigeo, a intenção de nenhum deles era matá-lo de fato, e sim forcá-lo à fazer algo, quer ele queira ou não. E a ideia de ter o seu direito de escolha violado pode assustar mais que monstros de força estrondosa.

No terceiro episódio, Shigeo vai até o culto LOL e é forçado pelo seu líder (um homem que Dimple estava possuindo) à rir, mesmo que ele não consiga. Refletindo os sentimentos de Shigeo, a direção faz com que tudo naquela situação seja desconfortável, pareça errado e gradualmente o tom cômico do anime vai desaparecendo. Em um momento, Shigeo gospe o leite que lhe foi dado, e em meio as risadas vemos sua expressão claramente dolorosa e distorcida. Em seguida, Dimple começa à usar as palavras perturbá-lo: ele tenta convencê-lo que a falta de emoções, a incapacidade de “ler o clima” o faria incapaz de conviver com os outros e o levaria para vida de solidão. Não é atoa que e essa provocação deixou Mob tão irritado: ele cutucou bem na ferida.

 

Episódios depois, o confronto é com outro esper da mesma idade que Shigeo, que ilustra bem que além de uma batalha de poderes, a luta entre os personagens é ideológica. Teru tenta ao máximo fazer Shigeo ir contra os próprios princípios e ele resiste até praticamente, perder a própria consciência. Além disso, o que estamos vendo é, além da luta de espers, uma briga entre dois adolescentes indo longe demais.  A cena é visceral, com fluídos corporais pra todo lado, com a expressão dos dois se distorcendo deixando claro que ambos estão numa situação de desespero.

É algo simplesmente feio. É uma situação cruel, dolorosa de assistir. Muito mais que sangue, corpos sem rosto e tripas de monstros. Talvez por isso que a demonstração de poder do Mob seja uma forma negra, distorcida, que talvez não seja tão forte quando o Saitama, mas dá muito mais medo.

Ponto #6: O (não tão) glorioso mundo dos heróis vs O mundo estranho da adolescência

 

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A vista da cidade em One Punch Man e em Mob Psycho 100: dá para ver a diferença!

A diferença visual de One Punch Man e Mob Psycho 100 saltam os olhos de qualquer  um. Ambas as séries são extremamente bem animadas, mas por que a atmosfera das duas é tão diferente? Primeiro vamos para o que é obvio: One Punch Man não é uma adaptação direta do mangá de ONE, e sim do Murata que redesenhou a obra. Mob Psycho 100 é uma passagem direta do trabalho dele nas telas. Isso aumenta ainda a distancia visual e de tom entre as duas obras.

One Punch Man teve o design de seus personagens inspirados no traço extremamente detalhado do Murata, que tenta passar uma sensação que remete aos quadrinhos de heróis americanos. Por consequência isso é refletido em vários aspectos do anime: personagens num geral tem proporções corporais mais realistas, os cenários muitas vezes tentam lembrar fotografias. Mas ao mesmo tempo, você tem uma quebra de tudo isso com ideias de designs estranhos e divertidos. Afinal, como levar à sério um cara com corpo de caranguejo só de cueca matando a população? Além disso, simplificar a arte em momentos e personagens chave (como o próprio Saitama) é importante na narrativa do anime. Novamente, é tudo uma questão de contraste.

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Saitama quando lutou com um monstro pela primeira vez e como ele é no presente: só pelos olhos dá para dizer  como ele se sente.

Mob Psycho 100, vindo de um artista mais amador em questão de técnica, (mas que não deixa de conseguir passar suas ideias tão bem quanto o Murata, diga-se de passagem), é mais irregular, rabiscado, o oposto do Murata. É clara que o anime deixou o traço dele com uma aparência mais polida, mas a essência do estilo do ONE continua ai. Não é algo que pode permanecer instável. OPM já tinha varições de estilos de animação em cenas específicas por causa do grande número de animadores com marcas próprias (os momentos calmos e os “sakugas” parecem dois animes completamente diferentes), mas em Mob Psycho 100 as coisas vão para outro nível: animação em tinta à óleo, frames com contorno super marcado à lápis, outros sem contorno nenhum, quadros estáticos à lá Osamu Dezaki, o minimalismo da contagem que leva Mob até o 100, e por aí vai. Tudo isso não só no mesmo anime, mas às vezes, no mesmo episódio (ênfase que eu não falando da animação ser ou não fluída, mas sim na variação de estilos visuais).

 

Essa variação também tira parte do contraste cômico, já que as formas dos personagens são sempre estilizadas. Isso explicaria porque apesar o traço cartunesco, o anime parece mais pesado que One Punch Man às vezes. Até porque, mesmo com tons cômicos,  criar uma comédia puramente não foi a intensão do ONE (em uma entrevista, ele comenta que a intenção foi fazer algo que fosse “gentil”, um slice of life com poderes… bem, isso explica muita coisa!). Afinal, a falta de realismo não tira o poder da expressão dos personagens.

Narrativamente, os dois estilos são válidos nas duas obras: é One Punch Man é sobre a desmistificação desse mundo de super poderes, e Mob Psycho 100 é sobre a adolescência, uma fase onde as emoções vão variando de um pico para outro.

Ponto #7: Vendendo o peixe

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Pra terminar essa cascata de texto, vamos falar das aberturas dos PVs de ambos os animes. Por que? Não tem porquê, eu só gosto deles. Aberturas e trailers são importantes para vender a obra, deixar uma impressão nas pessoas, e tanto One Punch Man e Mob Psycho 100 fazem isso muito bem.

Vamos começar com a empolgante abertura One Punch Man, interpretada pelo cantores de longa data do JAM  Project. Ela não diz muitos sobre os acontecimentos do anime em si, mas passa a ideia de quem é Saitama perfeitamente: um verdadeiro herói, que não vai ser derrotado não importa o que venha.  A ênfase é o quão forte é Saitama (esse vídeo consegue dar um pouco mais de detalhes técnicos do que eu). Isso é algo que é refletido tanto pela sequencia animada quanto pela letra composta pelo Jam Project, que chega à soar como hino.

“Herói! O que eu não quero são vozes me louvando!

Por isso eu luto contra o mal escondido

“Ninguém sabe quem ele é!”

O céu se enche de inimigos

E eu não vou dar as costas

Estou preparado seja o que vier

“Lute herói! Solitário herói!”

E ao mesmo tempo, ela chega à ser divertida, porque mesmo refletindo tão bem a natureza do Saitama, a aparência dele no anime, na maior parte do tempo, se difere completamente da abertura (além da grande sequencia de feitos épicos terminar justamente com ele indo pra casa com as compras do mercado).

Em compensação, a abertura de Mob Psycho 100 é um teaser muito mais direto do que está para vir no anime nessa primeira temporada/cour: o aparencimento do clube de musculação, do culto LOL, a agressividade do Teru, e muito mais que ainda não vimos. Algumas imagens também fazem referência à capas dos volumes dos mangás. E, se a  de OPM chega à ser visualmente comportada, a Mob é uma bagunça, comprimindo o máximo de informação na tela no menor tempo possível. Não dá pra dizer que não combina com a energia caótica do anime.

Diferente de OPM, a ideia da de Mob não nos falar o quão nosso protagonista é legal. Na verdade, a letra parece falar mais com Mob que conosco.

“Mob, Mob, o que você quer?

Mob, Mob, por que você quer?

Mob, Mob, quem você quer?(…)

Se ninguém é especial, talvez você possa ser o que quer ser!

Mesmo que sobrecarregado por tristeza e alegria

Sua vida devora o seu mundo de novo

Não ser especial talvez seja OK!

As respostas para cada uma de suas perguntas você vai encontrar!”

Isso deixa bem claro a diferença do foco de cada um dos animes. Sobre os enceramentos… bem, não tanto à se comentar sobre eles. O de Mob é interessante visualmente, não só por ser animado em pinturas à óleo, mas também por ser a visão do Reigen, que ganha cores quando ele encontra com o Shigeo no final, além de mostrar as etapas do crescimento dele que ele acompanhou (acho que já ficou claro que Reigen vê Shigeo bem mais do que algo para ser usado). Sobre o de OPM… bem, é engraçado como aquela música melosa foge ao tom do resto do anime.

PS: Eu nunca havia me tocado na letra do enceramento de OPM até pouco antes desse post sair. Só então eu percebi que essa era uma música romântica cantada justamente para o Saitama (“A pessoa que eu amo é tão forte que me preocupa“), em que o eu lírico espera ansiosamente ele voltar para casa. Isso é pra representar os sentimentos de quem? Do Genos? EH!?

Indo para os PVs, vamos dos três que eu acho mais interessantes de comentar (um de OPM, outros dois de Mob).

O primeiro trailer de One Punch Man naturalmente tem menos partes animadas para o anime que os próximos, e se foca mais em apresentar a equipe trabalhando na obra e passar uma sensação que o anime será algo épico (parecido com os trailer dos filmes de héroi em Hollywood) e no final… Saitama aparece se apresentando como “um herói por hooby” e causa uma pequena surpresa em quem não conhece a obra. Na minha opinião é um jeito bem efetivo de apresentar uma história com pouca coisa.

Passando para os de Mob Psycho 100 (o segundo, primeiro), foi feito um monólogo do Reigen (ou melhor, um diálogo) especialmente para o trailer. Ele fala primeiro sobre a existência misteriosa de poderes psíquicos, incompreensíveis para a ciência, e então rapidamente muda a conversa para a  adolescência. Ele cita exemplos do que cada um faz com a sua vida enquanto o vídeo introduz o elenco de personagens (afinal, são bando de adolescentes). Ele então fala das emoções trancadas no interior de cada um vem à tona numa explosão, sem que ninguém consiga pará-las (o que é claro, é uma referência à contagem de Mob até a explosão). E por ultimo, mas não menos importante, ele fala diretamente para Mob para não se preocupar com isso, afinal, a vida dele é dele mesmo (“você é o protagonista da sua própria vida”, de novo o contraste com ele ser… o Mob).

O terceiro trailer tem um tom um pouco diferente e dessa vez todo o conteúdo dele, desde a animação ao diálogo foi usado efetivamente no anime. A primeira parte começa com um jeito mais melancólico, com alguns das falas mais reflexivas do anime (“Você está mesmo vivendo sua juventude ao máximo?” “Todo mundo tem algo que quer fazer na vida.” “Eu sou mesmo… o pior.” Isso numas traduções meio aproximadas). Depois, surge um clima frenético, mostrando toda a energia que a série tem (além da boa animação, lógico), com a música de abertura ao fundo até chegar  mostrar o título. E, por ultimo, um monólogo do narrador (aquele do terceiro episódio antes do Mob chegar aos 100%), ao som de uma música mais melancólica, usando só a key art como recurso visual (parecido com o trailer anterior), que lembra uma página mangá, sendo preenchida com o elenco do anime. A narração conta justamente sobre um esper que trancou os próprios sentimentos até não poder mais. O ultimo quadro então, é justamente Shigeo nesse estado de “explosão”.

Conclusão

Chegando ao final, acho que podemos ver o porque das duas obras são diferentes, apesar de compartilharem ideias de um mesmo mangaká. ONE tem como característica de seu trabalho ir contra a onde de diversos clichês de mangás shounen. Ou melhor, não apenas clichês, mas a própria ideologia usada na base dos mesmos: “Ser o melhor em alguma coisa é assim bom? O que vai acontecer depois? E ser o melhor, é realmente o que importa? Ficar tão dependente assim de um só dom é mesmo saudável?” São questionamentos desse tipo que fazem o trabalho dele brilhar, ser interessante.

Essas coisas estão presentes tanto em One Punch Man quanto em Mob Psycho 100, mas as mesmas obras levam à abordagens diferentes: um se passa com os personagens já na fase adulta, outro na adolescência. Um é sobre alguém que já desenvolveu seus poderes e não sabe mais o que fazer, o outro é sobre alguém que ainda está aprendendo à lidar com eles. Temos uma comédia sobre a vida de herói que ficou forte demais e um coming of age de um esper procurando a própria identidade.

E…bem, chegamos meio que ao último parágrafo. Espero que tenham gostado deste texto que comprimiu algumas impressões minhas das duas obras do ONE em umas poucas mil palavras. Lógico que tem muito mais para se dizer sobre os dois animes (até porque Mob está ainda metade) e ainda mais se formos para o mangás, mas por hoje vamos ficar por aqui. Já peço desculpas por ter me empolgado demais e isso pode ter deixado o texto um pouco extenso e cansativo de acompanhar.

Fiquem com esse desenho do One fazendo um crossover das duas séries pra fechar o post.

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Fontes e outros links

Crunchyroll: Artigo sobre One Punch Man/Anpanman – Entrevista com Tachikawa e ONE sobre Mob Psycho 100 (bem interessante de ler, recomendo)

Mother Basement: Análise da abertura de One Punch Man – Análises do trailer e adaptação de Mob Psycho 100

NicoNicoDouga: Vídeo fanmade da abertura de One Punch Man com o traço do One (não tem nada a ver com o texto mas merece estar aqui)

E, se você se decepcionou por eu não fazer um texto sakugafag sobre os animes, o blog do sakugabooru  está acompanhando Mob Psycho 100 semanalmente.

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Um pensamento sobre “One Punch Man e Mob Psycho 100: Indo de um à cem

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