Impressões do Trial: Koshotengai no Hashihime

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Mas que chuva, hein?

“Décimo ano da Era Taisho, Junho. Chove em Jimbocho.”

Ok, você provavelmente nunca ouviu falar desse joguinho de nome meio complicado, mas é pra isso que serve esse post! Koshotengai no Hashihime (algo que dá pra traduzir bem literalmente como “A princesa da ponte, da cidade dos livros”) é um BL game do grupo doujin  Adelta. É terceiro jogo deles, mas o primeiro “de peso”  com cinco rotas planejadas e aparentemente uma duração razoável.

Na primeira vez que eu vi algo sobre, provavelmente em alguma tarde entediada na internet, Hashihime me chamou pela sua arte estilizada e pelo fato de ser BL (são os instintos, não tem jeito), mas fiquei um tempo sem nenhuma informação sobre a história. Depois é que eu comecei a seguir o grupo mais de perto e inevitavelmente ficar mais ansiosa. Tudo indicava que algo no mínimo bacana estava por vir, até que o trial finalmente saiu e eu pude dar uma olhada como a visual novel era de fato.

“Mas e aí, curtiu?” Bem, aqui está a resposta.

Para te deixar situado: Koshotengai no Hashihime se passa na já mencionada Jimbocho (bairro de Tóquio) em 1922. Nosso protagonista é o jovem Tamamori, que saiu da vila natal para tentar entrar na Universidade Imperial. Diferente de seus dois outros amigos da mesma vila, ele falhou, e foi trabalhar num cebo estranho, no qual ele nunca viu o rosto do dono. No entanto, ao invés de passar o tempo estudando, Tamamori está mais interessado em escrever, agindo como um verdadeiro novelista wannabe (ele inclusive chegar a usar óculos falsos, para parecer mais inteligente).

olha a patada

Kawase: “Você também anda distraído, hein. Tem certeza que Tamamori não te passou a doença da idiotice?”

É um pouco complicado comentar muito mais da história, ainda mais num trial tão curto, mas basicamente a rotina normal do protagonista começa à girar quando acontecimentos estranhos começam a ocorrer com ele e no seu círculo de conhecidos, assim como boatos de uma aparição estranha rondar Jimbocho.

O trial tem mais ou menos cobre mais ou menos uns três dias, tendo aproximadamente quatro horas ( isso é a estimativa da própria Adelta, se você não domina tão bem os moonrunes pode esperar levar beeem mais tempo). Isso é tempo o suficiente para apresentar uma boa parte dos personagens, ou ao menos fazer com cada um das 5 “opções românticas” aparecerem.

Antes do trial eu estava com um pouco de medo que a visual novel fosse apenas algumas ideias visuais interessantes para uma história meia-boca. Lógico que havia informações como a sinopse e descrição dos personagens, que também soavam promissoras, mas se iam aplicar bem esse potencial ou não era um mistério. Vindo de uma escritora desconhecida, podia vir qualquer coisa.

No entanto, o estilo visual é apenas um elemento num conjunto que parece ser muito rico.  Diferente de algumas visual novels que demoram um pouco para “engrenar”, Hashihime tem um começo já bem chamativo, e consegue te prender logo de cara. O trial conseguiu muito bem estabelecer os diversos mistérios, além dos personagens e principalmente o protagonista, Tamamori. E por falar nele, ele já um personagem  bem interessante!

eu realmente gosto dessa CG

“Não pode ser. Não pode ser, finalmente. Os laços do coração dele, eu acho que finalmente consegui tocá-los.”

Uma das coisas que chamavam a atenção desde as imagens promocionais, inclusive, são as ilusões dele: desde que era novo, Tamamori costuma alucinar, vendo cenários psicodélicos e mesmo os personagens da sua própria história. Ele tem conciência de quando está tendo essas ilusões, no entanto, é uma coisa a se notar: o quanto ele realmente separa a realidade da ficção?  Isso faz o leitor duvidar do ponto de vista dele. Protagonistas mais reclusos podem cair às vezes na mesmice, no entanto, conseguiram aprofundar bastante Tamamori mesmo dentro do trial, dando-o identidade própria. Ele é um estudante um pouco frustado, um pouco orgulhoso, e as suas preocupações são bem relacionáveis. Um personagem que tem um potencial de crescimento enorme.

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Hikawa: “Isso mesmo! Você é um maravilhoso grande escritor!”

 

Os outros personagens principais também não ficam muito atrás. Cada um tem características próprias e não passam a sensação de esteriótipo. Três deles são amigos de infância do mesmo vilarejo de Tamamori (Kawase, um estudante genial de personalidade problemática, Minakami, um bookworm que leu todo o acervo de 4 mil livos do cebo em que o protagonista trabalha, Hanazawa, um membro do exército que reencontra Tamamori depois de oito anos), outro é Hikawa, um fã alucinado dos trabalhos de Tamamori e o ultimo é o Homem da Máscara de Noh, cuja a aparição é o clímax do trial. Todos tem potencial, e mesmo os personagens secundários parecem ter seus próprios mistérios.

(Esse paragrafo à seguir tem spoilers do trial, se tu já leu a sinopse em algum outro site, já deve saber, mas se não, melhor deixar como surpresa e pular esse parágrafo.)

Falando na história, uma das coisas que mais me vendeu nesse trial foi a morte repentina do Minakami, que é o primeiro evento estanho à acontecer (ele comete suicídio, se enforcando na ponte, sem motivos aparente). A cena em que o Tamamori recebe a notícia do falecimento dele fugiu bem do que eu esperava: ele primeiro não parece entender o que aconteceu, e só tempos depois começa à ficar realmente triste. Tem um impacto dramático  difícil de se conseguir em poucas horas de jogo. É lógico que a morte de Minakami não deve ser “permanente” já que ele é um dos personagens listados com rota (aparentemente, vai ter algo com loop temporal também, o que vai tornar as coisas ainda mais bizarra), mas o que causa impacto realmente é como o Tamamori se sentiu com tudo isso.

TANANAAAAAMM

“…Não tem erro, é o suspeito. O suspeito de Jimbocho. O gigante de mais de seis pés de altura.”

Outra coisa que me surpreendeu positivamente são os valores de produção do jogo, principalmente considerando que é um doujin. Há uma variedade bem grande de cenários, CGs e sprites, e tudo de maneira geral é muito bem desenhado (um detalhe é que todo os cenários são de chuva, que já é praticamente parte da identidade do jogo). Mesmo que o visual das ilusões do Tamamori seja o que mais chame a atenção, a aparência envelhecida da arte do jogo ajuda muito à entrar na atmosfera. Para uma visual novel “amadora”, não perde em nada para um trabalho profissional, e fica ainda mais impressionante considerando que tudo fora os recursos sonoros foram feitas por uma pessoa. A música é basicamente jazz e sons em piano, que também é muito boa, foi feita por um grupo doujin do Nico Nico Douga.

O jogo também é completamente dublado e mesmo sendo seiyuus amadores, o trabalho deles é competente. Tamamori especificamente soa um pouco como o Kiku de Shouwa Genroku Rakugo Shinju (lógico que não são seiyuus de mesmo calibre, mas acho que um se inspirou no outro). O único problema nesse sentido foi o sistema com alguns bugs (aparentemente concertaram depois, mas na versão que saiu no dia ainda tinha alguns como sprites duplicadas e dublagem erradas).

eu realmente gosto desses cenários

Todos os figurantes são retratados como sombras.

Koshotengai no Hashihime teve uma introdução fantástica, e eu realmente quero ver o resto do jogo logo. A arte, a música, a história, tudo. Com sorte não vai demorar muito (o lançamento está previsto para ainda essa temporada, como já estamos em junho, imagino que vão adiar um pouco mais.

Ainda que o trial seja realmente de qualidade, é difícil dizer que rumos a história pode tomar a partir dele. Eu torço pra não me decepcionar porque estou com as expectativas nas alturas. Pelo que li,, eu recomendaria mesmo para quem não tem afinidade em BL (o trial, inclusive, é all-ages, podem ler sem medo).

Agora eu vou lá juntar dinheiro pra poder comprar e ler o jogo completo logo no lançamento.

Abertura:

Enceramento:

Download do Trial (japonês)

 

 

EXTRA: Lista de referências culturais

Jimbocho, a cidade dos livros

Koshotengai (古書店街) se refere Jimbocho (神保町), que é um bairro de Chidoya, em Tóquio, conhecido como a “cidade dos livros”. O motivo para isso é grande concentração de cebos (como a que o protagonista trabalha), pequenas editoras e cafeterias amigáveis à leitura.

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“Oriente Kimena”, um cinema de Jimbocho presente no jogo que realmente existiu.

Hashihime, a princesa da ponte

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Hashihime (橋姫), literalmente “princesa da ponte”, é uma criatura mitológica do folclore japonês que habita pontes antigas. Apesar do nome “princesa”, hashihimes são a personificação da ira feminina: são mulheres que, consumidas pelos ciúmes e inveja, se tornaram demônios violentos. Dizem que casais devem ser cautelosos ao cruzar essas pontes, ou vão sofrer com a fúria de uma Hashihime. A mascara de Noh, usada pelo homem misterioso que encontra com Tamamori no final do trial, é o rosto de uma hashihime.

Yumeno Kyousaku

Como esperado de uma obra que se passa na cidade dos livros, Koshotengai no Hashihime tem várias referências de livros e seus autores, mas o mais presente e que provavelmente influenciou o jogo é Yumeno Kyousaku. Assim como Edogawa Rampo está para Edgar Allan Poe, Yumeno está para H. P. Lovecraft. Seu pseudônimo significa “aquelE que está sempre sonhando”, o que dá para relacionar com o protagonista.

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Dogra Magra é o livro do Yumeno mais citado durante o trial.

 

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