Akaya Akayashi Ayakashi no -Do vermelho

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“赤や灯や妖の
朱の音色のその向こう
朱の鳥居のその向こう”

Seres humanos e seres sobrenaturais convivendo sempre foi um tema muito explorado pela ficção e que sempre fisgou o meu interesse. Por esses e outros motivos acabei criando curiosidade por uma visual novel assim que tive contato com a mesma. Isso combinado com a escrita que aparentemente simples fez com que Akaya Akayashi Ayakashi no (algo que dá para traduzir como “Do vermelho, das luzes e do Ayakashi”) fosse a minha primeira visual novel lida em japonês. Mas e aí, valeu a pena?

Sinopse:

Yue é um menino que viveu a sua vida toda num templo, nas margens da pequena cidade de Utsuwa. Seu primeiro contanto com o mundo exterior foi na noite do festival de inverno, acompanhado de seu amigo e guardião Kurokitsune.

Em meio à festa com humanos barulhentos e lanternas de papel, Yue encontra dois humanos misteriosos e se vê diante uma estranha marcha de pessoas cantando uma música que lhe soa familiar.Ao retornar ao templo e conversar com a deusa local Mikoto, ela revela que os dois garotos são os principais candidatos para a “Refeição”.

Personagens

Protagonista:

yue

Yue (由): Um rapaz calmo, despreocupado e que só pensa em dormir. Em decorrencia de ter vivido isolado do templo, Yue não entende muito bem a vida dos humanos da cidade, e mesmo as coisas mais banais viram uma descoberta para ele. Sua idade aparente é de dezessete anos, mas sua personalidade pode soar mais infantil que o normal para sua faixa etária. Por essas e outras ele acaba sendo dependente de Kurokitsune, que o acompanha sempre nas visitas à cidade. Um detalhe importante é que, na visão de Yue, a maioria das pessoas são sombras sem face, e as primeiras exceções foram os dois garotos. (Ele também tem o hábito de ser perigosamente fofo, então tenha cuidado.)

Personagens Principais (com rota):

tsubaki

Tougo Tsubaki (椿 灯吾): Primeiro garoto que Yue encontra na noite do festival. Seu nome significa “camélia”, flor que ele odeia. Tsubaki é um aluno dedicado aos estudos e responsável, mas com personalidade difícil. Entre amigos da escola e mesmo com o próprio pai, ele prefere manter um relacionamento mais distante e um tanto frio. A única exceção é sua irmã mais nova, que ele sempre conversa com um sorriso no rosto. Sua situação familiar é um tanto complexa.

akiyoshi

Tochika Akiyoshi (遠近 秋良): Estudante da mesma escola de Tsubaki, e segundo garoto que Yue encontra na noite do festival. Vindo de uma das famílias mais poderosas da cidade, ele se auto intulá um defensor da justiça e protetor de Utsuwa. No entanto, a ideia que Akiyoshi tem de si mesmo foge da realidade: ele é um garoto com alergia forte, sempre precisando usar máscara e carregar lenços, além de ser facilmente confundido com um stalker. No entanto, ele ainda tem forte senso para o sobrenatural, e deixa claro sua  desconfiança à Yue.

sagano

Sagano (嵯峨野): Homem misterioso que carrega um bastão e usa o que parece um rabo de raposa ensanguentado como cachecol. Sagano costuma estar sempre de bom humor, mas suas atitudes contra Yue são violentas à primeiro momento, exigindo que “devolva seu corpo”. É o personagem mais “enigmático” e sua rota só acessível depois das de Tsubaki e Akiyoshi.

Outros personagens:

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Kurokitsune (黒狐): Seu nome significa literalmente “raposa negra”. É o mononoke guarda-costas de Yue, o acompanhando o tempo todo. Os dois mantem uma relação parecia com a de irmãos, e mesmo com uma personalidade um pouco estressada, ele guarda um grande carinho por Yue. Kurokitsune consegue assumir tanto uma forma de raposa quanto uma humana, mas mantem a cauda e rabo.

Mikoto

Mikoto-no-Nushi (ミコトの主): Deusa do templo de Utsuwa. Apesar da aparência jovem, sua autoridade e jeito de falar não escondem que ela é um antigo espiríto de raposa. Ela mantem as orelhas e oito caudas visíveis. As ordens de Mikoto são absolutas dentro do templo, mas ela costuma mimar Yue. Apesar de tudo, ela tem uma personalidade gentil e bom coração com seus semelhantes.

satou

Satou-san (狭塔さん): Principal sacerdote do templo, braço direito de Mikoto, além de ser o único que consegue questionar sua autoridade. Ambos são velhos conhecidos. Apesar de passar a maior parte do tempo limpando, Satou é um dos responsáveis pela proteção dos ayakashis e monokes de Utsuwa, tomando qualquer método para tal.

Comentários gerais

matsuri

Kurokitsue: “Bem, vamos logo para a próxima! Afinal, o festival continua, Yue!”

Lendo a descrição de personagens acima e vendo que tanto o protagonista quanto os “com rota” são masculinos, alguns podem chegar à conclusão de que AkaAka (como vou me referir agora) se trata de um BL. No entanto, a verdade está bem longe disso. O jogo praticamente não tem romance (nem tanto bromance, na verdade). É lógico que o jogo foi feito pensando no público feminino mas o foco não é um relacionamento amoroso entre os garotos. É claro que há interação constante entre eles, mas ela não é sempre a amigável. Cada um dos três personagens tem algum tipo de relação com o protagonista, e as rotas giram em torno dessa ligação.

Algumas pessoas vendo AkaAka “por cima” podem lembrar um pouco do anime/manga Natsume Yuuchinjou, e de fato ambos lidam com temas parecidos: o folclore e a interação de seres fantásticos com seres humanos, em que o protagonista é a ponte entre os dois. No entanto, se a conviência em Natsume é pacífica de maneira geral (falando com base no que eu vi da primeira temporada, me corrijam se eu estiver errada) em AkaAka as coisas não são bem assim.

(Aviso: Spoilers leves à partir daqui, se não quiser é só pular para os detalhes técnicos. Não é nada que eu ache que vá atrapalhar a sua experiência, mas esteja avisado!)

isso é meio triste

“Graças à vocês, humanos que se multiplicaram de maneira insustentável, nossa terra foi roubada e os mais fracos vieram a desaparecer.”

Embora uma boa parte do jogo seja quase um slice of life do Yue indo à cidade para encontrar os garotos e interagindo com os demais moradores do templo, aos poucos começa se notar alguma coisa de errada. A questão é algo que já revelado no início do jogo mas demora um pouco para o leitor se dar conta: ayakashis comem pessoas. Não é uma coisa que acontece com frequência, mas mesma que seja uma vez na vida, isso por si só já o suficiente para causar conflitos com os humanos.

Para se manterem em Utsuwa, os ayakashis chegaram à literalmente isolar o lugar: nenhum trem passa pela cidade, e a saída e entrada de pessoas é rara. Tudo isso para facilitar a prática do “kamikakushi” (神隠し, literalmente “escondido pelos deuses” ou “levado pelos deuses): uma pessoa é devorada e sua memória desaparece da mente dos outros. Por mais que pareça uma atitude cruel, o jogo reforça que esse foi apenas um jeito que os ayakashis e mononokes encontraram de sobreviverem quando “caçar” se tornou mais difícil para os mais fracos.

Como esperado, boa parte dos humanos que descobre o esquema dos ayakashis acaba oferecendo alguma resistência. Passa longe de uma revolta violenta, mas não dá para negar que alguns desses conflitos são um tanto trágicos (ou melhor, MUITO trágicos, em um ponto). No entanto, mesmo com o tema razoavelmente pesado de fundo, AkaAka sempre trás uma abordagem bem leve, amenizada pela visão inocente do protagonista.

ahhhh essas frases me acabam

Yue: “Eu não o Yoshiki, por isso, o seu desejo eu desejo eu não posso realizar, Tsubaki, mas… mas, posso ao te proteger?”

Ainda assim, por mais que a visual novel tenha essa temática boa para trabalhar, ao final da ultima rota eu senti que a série poderia ter sido um pouco mais pretensiosa. É tudo muito simples, e nem sempre de um jeito charmoso. Ao mesmo tempo em que tá para traçar uma correlação de ideias entre as três rotas, a história é simplória demais para fazer com que essas ideias tenham verdadeiro impacto. Como eu já disse, o conflito de humanos vs não-humanos já é algo muito recorrente da ficção, então fazer algo muito “feijão com arroz” pode não ser o melhor caminho.

A conclusão que AkaAka assume com o próprio tema, no entanto, é algo que fugiu do que eu esperava. Mesmo com algo mais sério ocorrendo por debaixo dos panos, tudo passava um ar descompromissado, então eu não esperava que os finais entregassem uma visão tão pessimista, e é até um pouco cruel. Ainda que hajam finais “felizes”, os três canônicos que resolvem a questão da “refeição” me deixaram com um gosto bem amargo. Isso, num bom sentido.

AkaAka tem um elenco muito grande, muito maior do que eu listei aqui, e são personagens interessantes de maneira geral. No entanto, a maior parte deles não tem nenhum uso relevante no roteiro e serve só para criar a ideia de comunidade de akayashis e monokes que o Yue vive. Ao mesmo tempo que eu entendo, é uma pena não ver mais deles. Para ser sincera, mesmo com os problemas pessoais resolvidos, nenhum personagem, junto com os principais, tem um desenvolvimento memorável. Novamente, tudo é perdoável porque a história se passa num tempo de poucos dias e o foco da visual novel passa longe de ser crescimento pessoal de alguém, mas ainda fica um vazio

Detalhes técnicos

mapa

Além das tradicionais escolhas comuns em visual novels, AkaAka tem “mapas” que te permitem escolher onde ir. Ir para determinado lugar em tal momento destrava certas cenas e também é importante para conseguir entrar em determinada rota. Pessoas que reclamam de linearidade em visual novels provavelmente vão ficar satisfeitas com AkaAka: o jogo tem uma boa variedade de escolhas e variações das cenas. No entanto, como qualquer detalhe pode influenciar o rumo da história muito lá na frente, pode ser bem díficil completar o jogo totalmente sem um guia. Mais um detalhe bacana é que  à cada rota completada, o personagem aparece junto do protagonista.

AkaAka tem uma grande quantidade de finais (mais de 15, isso para um jogo que tem só três rotas!), que variam de “bad end’s” simples à finais mais “adocicados”. Cada rota tem o seu final “real”, com direito à créditos e música de enceramento própria. Como eu já comentei, eles são finais verdadeiros, mas não os felizes.

A escrita de AkaAka é uma das mais simples que eu já encontrei em visual novels (não é atoa que foi a primeira que eu li em japonês). Não existem narrações, só diálogos, e mesmo esses na maioria das vezes são simples e diretos. Algumas passagens são um pouco mais complicadas, como a canção do começo do jogo, o jeito de falar da Mikoto e dos peixes-dourados que tem todas as falas escritas em katakana, mas não é nada tão complexo assim. Para quem prefere uma escrita que soe mais fluída e rápida o estilo de AkaAkaka deve agradar, mas você procura algo mais próximo de um livro veio ao lugar errado.

Áudio e Visual

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Vendo alguns dos screenshots desse post, imagino que já de para perceber que a estética de AkaAka foge bem do genérico de visual novel. Os cenários usam poucos tons de cores vivas e sombreados fortes de preto, dando um ar meio psicodélico. As sprites dos personagens também são bem coloridas, mas não usam tanto preto e sim um efeito que lembra aquarela. Isso combinado ao traço “shoujoesco” dos personagens cria um estilo visual bem único para o jogo. Infelizmente a anatomia da artista não é das melhores, e algumas das CGs acabam saindo meio bizarras, o que é meio triste considerando que a coloração e composição delas costuma ser interessantes.

E considerando que HaccaWorks é um grupo amador, a quantidade de CGs e sprites de AkaAka compete bem com jogos profissionais. Personagens principais e coadjuvantes tem todos pelo menos duas sprites com poses diferentes e uma boa variação de expressões, que nunca contradizem o texto.

A trilha sonora foi 99% feita pelo grupo Coo:ya: eles fizeram todas as BGMs e os três enceramentos. A única que eles não se encarregaram foi da abertura “Akakakushi”, que ficou com a cantora Shikata Akiko, bem conhecida pelas composições em Umineko no Naku Koro ni, Cross Ange, Akatsuki no Yona, Ar Tornelico e Hanakisou (a visual novel anterior da HaccaWorks). Tanto a música quanto o visual passam bem a ideia sobrenatural que a história quer passar.

Diferente dos trabalhos Akiko, as composições da Coo:ya de maneira geral são muito mais atmosféricas que melódicas, além de terem muito mais influência da música japonesa. Isso faz com que mesmo momentos mais calmos ganhem um ar muito mais misterioso e estranho do que normalmente teriam. Lógico que é exceções, mas não é o tipo de coisa que você colocaria no toca discos do carro. Poderia dar errado, mas nesse caso só fez a atmosfera do jogo ficar ainda mais único. Todos os três enceramentos são lindos, encaixam perfeitamente com a rota, definitivamente não perdem em nada para a abertura. O trabalho de efeitos sonoros também é competente.

Como esperado de um jogo doujin, a primeira versão para PC veio sem dublagem. Essa só apareceu na versão para PSP, que é muito boa por sinal, pelo que eu ouvi. Ainda tenho esperanças de que façam um patch com as vozes para edição PC ou que ela saia oficialmente se o AkaAka for para algum DL Site da vida.

Conclusões Finais

END

AkaAka é uma boa pedida para vários casos: se você procura uma história com o ar folclórico japonês, é novato nas visual novels e quer algo que foge dos romances escolares, com um ritmo um pouco mais fluído e rápido de ler ou mesmo só quer ver meninos fofinhos com o toque dos famosos feels. Enquanto eu ainda acho que o jogo tem problemas e não oferece nada de grandioso para contrabalancear, ainda é uma experiencia bacana no geral, principalmente se você tem afeição com esse estilo.

Foi um bom convite para me convencer à acompanhar outro possível lançamento da HaccaWorks (o que considerando o histórico deles, não deve acontecer tão cedo, infelizmente) e dar uma olhada na sua primeira visual novel, Hanakisou

Se você se interessou pela visual novel e não não tem interesse em estudar japonês, sem problemas! O jogo já foi traduzido pela AkaAka Translations e o patch está em fase de testes. O conteúdo da tradução pode ser encontrado neste site. Paciência, logo o jogo estará disponível em inglês.

Informações Gerais:

20873755Título Original: あかやあかしやあやかしの

Empresa: Hacca Works* (Hanakisou)

Gêneros: Otome, folclore japonês, sobrenatural, mistério, slice of life, drama

Data de Lançamento: 3 de Maio de 2011 (Edição para PC), 13 de Fevereiro de 2014 (Edição para PSP)

Qualificação indicativa: All Ages

Tradução para o Inglês Disponível (no momento de lançamento deste post): Não

Links: Site oficialVNDB

Abertura:

“É assim que tem que ser. Um mundo sem ayakashis, assim que é certo.”

Extra:

Assim como outras visual novels razoavelmente famosas, AkaAka tem uma adaptação em mangá, publicada numa revista shoujo, a Comic Gene. Diferente de algumas adaptações de visual novel que simplesmente socam a história em dois volumes com uma arte torta, AkaAka já está no seu oitavo volume e possui um traço agradável e anatomicamente mais correto que o do jogo. Ele inclusive está sendo publicado nos EUA pela Yen Press. Eu não cheguei à ler mais de uns capítulos pra afirmar o quão fiel está com o jogo, mas quem tiver interesse.

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